A melhor profissão do mundo

Transcrevo pra vocês abaixo o Editorial da Revista Dicas n.12, que tem como Editor-Chefe o grande mestre, professor Ronaldo Hirata. Texto inspirador e reflexivo, vale a leitura sempre! Forte abraço!

O grande talvez

Recebi uma mensagem em meu Whatsapp há poucos dias, a qual gostaria de usar para o editorial deste número. Assim começava: “Grande Mestre! Chutei o balde!”.

A continuação da mensagem vou reproduzir agora: “Estou na Califórnia me preparando para velejar o mundo. Saímos daqui para Panamá, Galápagos, Ilha de Páscoa e Chile. Depois voltamos para Ilha de Páscoa e seguimos rumo a Fiji, Polinésia Francesa e por aí vai”. Respondi: “Já estava sabendo que havia chutado o balde, melhor agora. Parabéns!”.

O julgamento dessa decisão divide muito as pessoas: as que pensam que meu aluno ficou louco, e os que invejam e admiram a coragem (gostariam talvez de tomar elas mesmas tal decisão para suas vidas).

Esse fantástico relato se refere a um odontólogo bom tecnicamente e, ao contrário do que possa parecer, bem-sucedido profissionalmente e com bons pacientes e uma clínica bem posicionada. O que o leva a esta estranha decisão? Eu o havia encontrado em um tradicional congresso de cerâmicas em Los Angeles dois meses atrás, estava satisfeito com a odontologia, mas resolveu ficar na Califórnia – e não voltar mais.

Há uma segunda história que também ocorreu dias atrás. Outro dentista me encontrou em um congresso e me descreveu um acontecimento nesse mesmo sentido. Me disse: Hirata, vi um curso seu em que você mostrava as próprias fraturas de mãos e braços pelas lutas que havia feito e decidi realizar meu sonho, mesmo sendo mais velho: comprei uma moto. Daí me acidentei e me quebrei todo, mas estou muito feliz. E você me ajudou a ter coragem para tomar esta decisão. Era o sonho que estava escondido.

Duas histórias que mostram uma lição muito legal: se todos se preocupassem em buscar a própria felicidade ao invés de tentar se convencer e convencer os outros do quanto é feliz, o mundo seria um lugar melhor para viver e menos chato.

Quantas fotos e postagens contando como sua vida é fantástica e você é feliz, como seu relacionamento com sua/seu parceira/o é ótimo!

Isso tudo me lembra de um discurso ufanista e nacionalista bastante conhecido que diz: o Brasil é o melhor país do mundo. Mas o morador da Islândia que ama também seu país diz: a Islândia é o melhor país do mundo. Aquela velha ideia etnocentrista (onde o “nós” e o que é nosso sempre está no centro de tudo). Em Uganda dizem também: a Uganda é o melhor lugar do mundo. Como nunca fui lá, não posso julgar. No dia em que eu tiver percorrido todos os países do mundo, vou poder, talvez, afirmar se o Brasil é ou não o melhor país do mundo. Até lá, muito cuidado com as minhas conclusões.

Se existe a correlação “a Odontologia é a melhor profissão do mundo”, difícil afirmar, uma vez que não fomos muitas coisas além de dentistas; não testamos todas as profissões, para afirmar se realmente é a melhor. Sou capaz de apostar que ser instrutor de voos de asa-delta deve ser também fantástico, mas nunca fui um para ter certeza. Trompetista de jazz deve ser também uma profissão atraente, não acha?

Por que estou trazendo este tema ligado às duas histórias anteriores? Porque tenho uma mensagem para o jovens dentistas (jovens de todas as idades, deixo claro). Não compre a ideia de que a odontologia é a melhor profissão do mundo e não acredite nas postagens de Facebook que dizem que todos amam a Odontologia. Isso é uma propaganda criada para convencer a si mesmo. Acredite em seu coração e em seu sonho, aquele que você deixou congelado enquanto se tornava o que a sociedade esperava de um profissional liberal. Se for mesmo a Odontologia, então não precisa postar isso, pois seu coração já estará satisfeito e preenchido. Se não for, corra atrás sem medo, e pare de tentar se convencer de algo que você no fundo já descobriu. Além do mais, a vida pode ser somente esta.

Isso me lembra que quem é feliz não precisa convencer outros de que é feliz, nem no Instagram. Aquele que tem um relacionamento excelente com seu parceiro não está preocupado em fazer os outros acreditarem nisso. A felicidade é por si. Você em uma praia com seu amor se preocuparia em postar uma foto dizendo o quanto está feliz?

Tenho um desejo interior de ter influenciado meu aluno chutador de balde (muito provavelmente ele mesmo se tenha influenciado), assim como o do nosso amigo dentista motociclista. Ambos saíram daquela lugar onde todos pensam que é a felicidade (zona de conforto) e, assim como no filme Matrix, resolveram tomar a pílula vermelha, encarar a verdade e sair daquela rotina na qual você nem discute o que existe fora dela.

Francois Rabelais, escritor e médico francês (também padre), disse em suas palavras finais: “Saio em busca do grande talvez”. Esta frase cairia bem para nossos dois amigos dentistas. O mundo mal espera para que você saia em busca deste grande talvez. Eu já ando por aí, como bem já sabe.

Oss e um grande abraço!

Ronaldo Hirata
Editor-Chefe

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